Arquivo 2020

O bom design durante os sintomas da pandemia

David Arty
Designer - Chief Of Design
paulistano, zl, empreendedor

David Arty, Designer, Formado em Técnico em Multimídia, Graduado em Design Gráfico com especialização em UX. Fundador do Chief of Design. Trabalha na área criativa desde 2009, principalmente com design para web. Atuou em agências, empresas de TI e marketing digital. Também atua como docente em treinamentos de design e tecnologia.

David Arty
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Que ano louco, não é?! Com certeza será um dos anos mais marcantes deste século XXI. E muito provavelmente o seu neto ou bisneto vai chegar pra você dizendo que está fazendo um trabalho de escolha e gostaria de mais informações sobre como  foi o ano da pandemia COVID-19. 

No momento que escrevo este artigo a pandemia não passou, mas já esteve pior. Tudo, exatamente tudo, como conheciamos e viviamos mudou: nossas relações pessoais, sociais e profissionais. Diante desse cenário, fica evidente que essa crise mundial impactou também, e não teríamos como ficar a par disso,  nós designers e a área em que atuamos de uma forma surpreendente.  Não que tenha surgidos nos segmentos ou especialidades totalmente inovadoras e “disruptivas”... Não é isso! O assunto é mais profundo.

O impacto que aconteceu atingiu a abordagem, o entendimento e olhar de design. Para e pensa comigo:

Imagine em plena quarentena, você sem poder sair de casa, não ter a opção de pedir comida pelo celular usando o ifood?
Pense em como seria sem ter o zoom para fazer reuniões de trabalho.
Já pensou sem o whats para comunicar de forma rápida? Ou até mesmo sem trello e para você organizar as tarefas e comunicar o status do que você está fazendo…

E. por que não, imagine até mesmo sem Youtube, Spotify e Instagram para te ajudar a passar o tempo.

Imagine só tem tudo e todas os outros aplicativos e serviços que usamos hoje em dia... (E pensar que já vivemos sem nada disso. Que coisa louca, não é?)

A maioria das pessoas, e até nós Designers, pode não ter percebido, mas o design, no caso, principalmente o digital, foi algo essencial e que nos ajudou, e ainda está ajudando, a superar esse momento tão difícil. 

E fazendo essa reflexão, lembrei de 10 princípios de design, do século passado, de um designer alemão chamado Dieter Rams. É incrível como tais heurísticas  são perenes e fazem tanto sentido nos dias de hoje.  E isso porque fazer design é mais simples do que os nossos modismos, vocabulário labiríntico e egocentrismo tentam complicar.

Caso você não saiba, Dieter Rams (1932) é considerado um dos mais influentes do século XX. Ele foi o responsável pelos icônicos produtos da Braun. Basta você fazer uma breve pesquisa na internet para ver como eles eram produtos mínimos, elegantes e simples. E muito do que vimos e vemos nos produtos da Apple tem como referência o trabalho de Rams.

Dieter Rams, chegou a esses príncipios por uma autocrítica. Nesse pensamento desconstrutivo ele  perguntou a si mesmo:

O meu design é um bom design?

A partir disso ele concebeu os 10 princípios de um bom design que são amplamente utilizados por designers do mundo todo como heurísticas do é feito um design. Esse princípios são:

1     Bom design é inovador

2     Bom design torna o produto útil

3     Bom design é estético

4     Bom design torna o produto compreensível

5     Bom design é honesto

6     Bom design é discreto

7     Bom design é durável

8     Bom design é minucioso

9     Bom design é amigo do meio ambiente

10   Bom design é o mínimo possível

Eu adoro esses princípios e sei que muito provavelmente você já deve ter os vistos, mas o fato deles serem tão atuais em um momento contemporâneo e difícil para humanidade, é o que os tornam ainda mais fascinantes.  Vale lembrar que vivemos em uma época onde vemos discursos desconexos com a realidade, com a ciência e com  intelectualidade, por isso é sempre bom relembrá-los, utilizando da sabedoria de quem já fez design de verdade. 

Entretanto, mais do que recordá-los, quero principalmente fazer um paralelo com o que estamos vivenciando, pois precisamos, mais do que tudo, zelar por um bom design.

Nunca antes foi tão importante falar que um bom design é útil, facilitando a vida das pessoas e possibilitando execução de tarefas fundamentais em nosso dia-a-dia. Estética é importante, mas não é tudo. Gerar lucro, faz parte, mas também não é para só para isso que o design deve ser concebido.

Nunca antes foi tão importante falar sobre honestidade no design. O quão honesto você está sendo com o seu design? O quão honesto você é com a sua equipe? O quão honesto você está sendo com o usuário?

Nunca antes foi tão importante falar  em ser mínimo e discreto. Temos muita informação, muita notificação, muita coisa para olhar. Ser mínimo é necessário. E diferente do que muitos pensam, não se trata de ser raso ou mal acabado e sim de ser menos, porém melhor (como diria Rams em sua frase célebre: “Weniger, aber besser”).

Nunca antes foi tão importante falar de qualidade: estética, de produção, de elaboração. Não se pode dar o luxo de criar algo mal acabado, sem testar várias e várias vezes, sem zelar por um acabamento cuidadoso, minucioso. Para isso basta ver depoimentos em sites como reclameaqui ou até mesmo na Play Store ou App Store.

Nunca antes foi tão importante falar de ser amigo do meio ambiente. O ano de 2020 também será marcado pelas queimadas nas florestas e guerras políticas ambientes nos gabinetes dos poderosos. Mas não somente nesse âmbito, a questão ambiental atingiu e comove toda a sociedade. Fazer e pensar em um design que seja durável e sustentável é fundamental. Não tem para onde fugir.

Nunca antes foi tão importante falar em inovação. Está cada vez mais difícil inovar no sentido de criar algo totalmente revolucionário, porém ainda é possível e mais: inovação não se trata apenas de criar o inimaginável mas de conceber e possibilitar melhorias para coisas que já existem.

Nunca antes foi tão importante falar sobre ser compreensível, tanto no sentido de facilidade de entendimento das informações quanto no sentido de ser acessível, de ter empatia pelo próximo. Pregamos muito a empatia, mas nessa pandemia percebemos realmente na pele que se não tivermos empatia de verdade, tanto por quem está conosco no dia-a-dia quanto para as pessoas que projetamos, nunca conseguiremos fazer um bom design. 

E para complementar esses princípios (quem sou eu para isso?), é importante acrescentar que nunca antes foi tão importante de falar em Design Universal. E quando falamos universal, não  podemos nos limitar apenas às nossas peças de design, as interfaces ou ícones: a universalidade deve ser a respeito também sobre o mercado e a disseminação de conteúdo sobre design. 

O mercado, e área em si, de design ainda é sim elitizada e pouco receptiva (apesar de na teoria se pregar o inverso) para pessoas que iguais a mim vieram de periferia e escola pública (isso sem falar sobre tantos outras questões sobre igualdade que poderíamos citar) E com essa afirmação não quero entrar na onda da “mitagem ou da lacração”, apenas quero expor certa dissonância entre o que é dito e a realidade.

Acredito que quanto mais ações que debatem, questionam e explicam o que é design, como por exemplo o próprio design 2021 e como eu tento no Chief of Design todos os dias, melhor será para todos nós e para os que estão por vir. 

Quanto mais conteúdo de qualidade tivermos, melhor. 

Precisamos conversar mais sobre design de um jeito mais simples e nítido para quem quer que seja, precisamos nos questionar, precisamos essencialmente  fazer um bom design.

É de suma importância fazermos autocrítica, assim como Dieter Rams fez,  para podemos parar de complicar o que pode ser simples, de inventar milhares de termos para definir a mesma coisa, de segregar os novatos, e etc, porque precisamos focar no que importa: fazer um bom design.

O que faz é design? Você faz um bom design?

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