Arquivo 2020

Liderança inclusiva, design e autoconhecimento

Thaly Sanches
CPO no Todas as Letras
Trans, Ace, Medium

Empreendedor social e designer. Estou envolvido com projetos que unem tecnologia e impacto social desde 2012, dentro da área social foco principalmente em diversidade, inclusão e saúde mental/bem estar.

Thaly Sanches
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Fiquei bem animado quando recebi o convite pelo LinkedIn para escrever um artigo para o design 2021. Dei uma revisada na lista de artigos de 2020 e fiquei pensando no que escrever. Pensei nos seguintes temas 'O aplicativo que você projeta realmente impacta a vida das pessoas?', "Design a lá cisgeneridade, vivência trans no meio de ux design', 'Como o autoconhecimento pode nos tornar pessoas e profissionais melhores' , etc.

No final  decidi escrever sobre liderança.

Muito se fala sobre liderança

O que é liderança afinal de contas? Geralmente são pessoas que conseguem olhar a motivação dentro das outras, conectar ideias, propósitos, motivar um grupo a dar os resultados que a empresa espera.

Eu costumo usar bastante o LinkedIn, e vejo vários cursos, em sua maioria caríssimos ,sobre liderança, sobre como ser um bom líder.

Mas não vejo quase ninguém falando sobre ser uma pessoa melhor, e como podemos nos tornar lideranças melhores se não buscamos liderar a nós primeiro?

Por isso, hoje eu quero falar sobre autoconhecimento, e sobre abraçar nossas "trevas", não gosto muito desse termo, mas é o que melhor vem em mente.

Nascemos e crescemos em uma sociedade extremamente preconceituosa em todos os sentidos, racista, transfobica, homofobica. Eu como pessoa branca convivi com pessoas que faziam piada com pessoas negras, não sabia como reagir, não entendia, e consequentemente concordava com aquilo sem me posicionar.

Nós crescemos escutando que ser ‘’viado’’, ‘’homossexual’’, é visto como um xingamento, como algo ofensivo. A mesma coisa com ‘’retardado’’, que é inclusive uma forma  de retardo mental, caracterizado como uma  forma de deficiência intelectual.

Então, antes de pensar em liderar outras pessoas, já pensou em liderar a si? Ver o que te motiva a ser uma pessoa melhor?

Nosso cérebro possui um viés inconsciente, onde ele guarda uma informação e compara  futuramente para poupar energia.

Esse viés inconsciente faz com que conclusões precipitadas, baseada em informações superficiais, possam ser tiradas com base em informações captadas  a partir de visões estereotipadas anteriores.  Em suma: crescer e viver na nossa sociedade, tendo o nosso cérebro como ele funciona, acaba se criando pessoas preconceituosas.

Não podemos ver isso como uma ofensa, estamos falando que é como nosso cérebro funciona, e como nós acabamos criando esses pensamentos preconceituosos, e consequentemente, comportamentos. 

Não dá para arrancar o nosso cérebro para mudar se não nós morremos, certo? Por isso precisamos mudar nossa sociedade. Como todo bom designer, o problema não está na pessoa, está no projeto que não foi desenhado para ser acessível.

Para combater o viés inconsciente é preciso estar o tempo todo com abertura aos feedbacks, buscar se politizar, politizar nossos atos. Praticar autoconhecimento, enfrentar nosso lado que não gostamos, ir contra nosso ego, tudo isso dói muito, é difícil, é desconfortável. É confortável e conveniente para nós ficarmos na  zona de conforto, porquê melhorar como pessoa é doloroso.

Toda pessoa líder deveria focar primeiro a trabalhar a si, e não a sua equipe, ou grupo.

Antes de sermos profissionais, somos seres humanos, já passou da época de separar a vida  pessoal da vida profissional, esse discurso abre possibilidade de contratar uma pessoa sem ética alguma, por exemplo. Só porquê esta pessoa é um ótimo profissional naquilo que faz.

Antes de pensar em liderança, temos que pensar sobre ética, sobre direitos humanos, sobre ser uma versão melhor de nós, e aprender como liderar a nós, antes de querer liderar outras pessoas.

E só depois disso acredito que podemos falar sobre liderança… e consequentemente,  falar de diversidade e inclusão.

Como empreendedor social, participei de programas de aceleração de negócios de impacto, fui embaixador Choice, virei fellow do instituto Amani, e em toda essa minha caminhada no meio de empreendedorismo social, eu era sempre a única pessoa trans. Mesmo no meio de negócios de impacto nós vemos que o perfil próximo dessas pessoas é a da pessoa  branca normativa.

Quem  tem condições de fazer a diferença no meio social, empreender, criar projetos, geralmente são pessoas privilegiadas: pessoas que tiveram oportunidade na vida e não perderam oportunidade por serem quem são. O mesmo vale para trabalho voluntário, geralmente quem tem condições de fazer trabalho voluntário é porque tem a possibilidade de trabalhar por uma causa e não receber retorno financeiro por isso.

Muitas vezes as pessoas acreditam que nós vivemos em um mundo ideal onde as pessoas são avaliadas apenas pela sua capacidade, o que não é verdade. Conheço inúmeros casos de pessoas trans que perderam a oportunidade logo depois que o RH soube que eram pessoas trans. E isso não se resume só a pessoas trans, mas a pessoas negras e de outros recortes sociais.

Precisamos entender que esse mundo lindo e maravilhoso que muitas pessoas privilegiadas pensam que existe, onde ninguém perde oportunidade por ser quem é, não existe de fato.

Existem dados que apontam que 90% das mulheres trans estão na prostituição pela falta de oportunidades de trabalho.

Logo, essas pessoas estão na maioria das vezes apenas querendo ter uma vida minimamente confortável, poder trabalhar em um lugar que não as trate as mal sabe? Dificilmente elas vão ficar preocupadas em abrir a próxima fintech para concorrer com o Nubank, porquê a prioridade delas é ter uma vida minimamente confortável.

Eu me coloco nesse lugar de privilégio também, porque apesar de ser uma pessoa trans, eu ainda sou uma pessoa branca que nasceu em uma família de classe média alta e tive um mba pago pelos meus pais.

Lá no Todas as Letras, nós recebemos contato de empresa de tecnologia querendo divulgar vaga para pessoas LGBTI+, principalmente para a comunidade trans, e nós sempre perguntamos se a empresa está preparada para receber essas pessoas, elas não entendem que precisam trabalhar a cultura da organização, que diversidade e inclusão precisa ser um setor estratégico da empresa.

Na Todxs fizemos uma pesquisa com pessoas ligadas a área de inovação e impacto social. Na nossa pesquisa a maioria das pessoas marcaram que entendem o básico de diversidade e inclusão, mas na pergunta seguinte quando perguntamos se conheciam os 5 recortes de diversidade, a maioria falou que não conhecia. Ou seja, as pessoas pensam que entendem de diversidade e inclusão, igual o que acontece com as empresas que entram em contato pensando em só jogar as pessoas lá dentro, sem precisar trabalhar a cultura da empresa.

Finalizando o raciocínio, tanto a pessoa líder quanto a equipe precisam ser trabalhadas e educadas para tornar o ambiente mais inclusivo para pessoas dos demais recortes sociais

Então, o primeiro ponto para preparar o grupo/organização/equipe é buscar a educação sobre o assunto, entender e aceitar que a questão é muito mais profunda do que parece. Nós tendemos a supor que entendemos sobre diversidade e inclusão, quando na verdade não entendemos de fato. Temos diversas pessoas fazendo conteúdo sobre o assunto, eu inclusive faço no meu LinkedIn pessoal e pelo Todas as Letras.

Devemos buscar trazer essas discussões, esse debate, pras pessoas da equipe, para a própria pessoa líder, e manter se atualizando sobre o assunto. Após iniciar esse trabalho e preparar o ambiente, aí sim podemos colocar uma pessoa trans lá , porquê ela possuindo o conhecimento de que a equipe, e a própria pessoa líder, foram atrás da educação, de combater o viés inconsciente, isso vai fazer a pessoa se sentir mais confortável.

Na última empresa que trabalhei, era uma empresa de consultoria de CX, e eu fui a primeira pessoa trans a entrar nela. Meu líder de design avisou todo mundo que eu era uma pessoa trans apesar da aparência, que meus pronomes eram masculinos, para me tratar no masculino. No andar onde ficava o núcleo de user experience, ele também tirou o gênero dos banheiros, até porque eram banheiros unitários, não aqueles coletivos, então realmente não fazia o menor sentido separar por gênero. Toda essa preocupação com minha chegada  fez com que eu tivesse mais confiança na equipe e consegui me abrir mais para propor ideias, tanto que iniciei o grupo de estudos de UX lá dentro, já cheguei querendo trazer várias propostas e iniciativas, até pelo meu perfil empreendedor.

Isso poupa a pessoa trans, ou pessoas de outros recortes sociais, de ter que ficar dando consultoria gratuita de diversidade e inclusão, só para ela ser quem é de forma confortável lá dentro. È cansativo ter que atuar como consultor de inclusão de pessoas trans 24 horas por dia para simplesmente ir nos espaços e ter uma vida confortável. Já fui dar palestra sobre diversidade e inclusão em uma empresa de tecnologia grande, a líder de diversidade da empresa falando altas coisas da empresa, e aí fiquei 40 minutos para entrar porquê meu nome no RG não batia com o nome social.

E mesmo assim, todos os meus relatos pessoais que trago aqui, eles não condizem com a real situação das pessoas trans, porquê mesmo sendo trans, eu ainda sou uma pessoa branca, sem deficiência que nasceu em uma família de classe média alta. 

A maioria dessas pessoas estão em situação de vulnerabilidade social, tenho várias amizades trans que foram expulsas de casa, moram em república, pessoas que não conseguiram nem terminar o ensino médio por diversos motivos, envolvendo também o preconceito nas escolas e da família. Muitas tentativas e pensamentos suicidas também. Essas realidades acabam sendo uma muito distantes da nossa bolha privilegiada, porque querendo ou não nós trabalhamos em um meio elitizado, que é a área de design e experiência de usuário.

Agora vamos entrar na nossa área de design. Já parou para pensar como a nossa profissão é elitizada? Tempos atrás estava pensando e cheguei a conclusão que a área de design consegue ser mais elitizada do que a de desenvolvimento ( na minha visão pelo menos), conheço mais pessoas trans que são pessoas desenvolvedoras do que são designers. Porque a área de design exige um preparo e experiência com desenvolvimento de projetos/produtos que na maioria das vezes uma pessoa não consegue sozinha. Por outro lado, quem aprende a programar consegue seguir de forma independente.

Os eventos de design são outro ponto, em sua maioria caros e não muito acessíveis. Lembro que fiz uma publicação no LinkedIn falando estar desanimado com eventos já que na maioria das vezes falamos sobre um produto focado na classe social A e B, geralmente usado por pessoas normativas que são apenas uma parte da população, na apresentação é falado sobre como o designer tomou tais decisões que resultou no aumento da retenção ou da conversão em vendas.

Uma pessoa trans que veio de outra realidade, chegando em um espaço assim onde se quer é discutido como adaptar o produto para aceitar o nome social dela, não vai se identificar com aquele meio. Eu mesmo vivo tendo problema com produtos digitais e desisto de usar porque não se tem essa preocupação com o design universal. Quando falamos de design universal geralmente as pessoas associam apenas a pessoas com deficiência, quando é algo que vai muito além.

Logo, nós passamos a maior parte do tempo desenhando produtos que aquela pessoa não vai usar, ou se quer vai ser vista como pessoa usuária, como uma possível persona. Como se motiva uma pessoa designer trans a desenhar um produto em que ela às vezes nem é vista como possível usuária daquele produto?

Esses dias fiz um post no LinkedIn onde expliquei sobre minha dificuldade em achar um bom profissional de psicologia através dessas plataformas de terapia online. Em um dos comentários a pessoa que é LGBTI+ falou da mesma dificuldade, e quando mandou email para a plataforma, responderam para selecionar a opção LGBTI+ no menu motivos, que ficava junto de outras opções como ansiedade e depressão, dando a entender que ser LGBTI+ era igualmente um problema como uma depressão. A forma como essa arquitetura da informação é feita dá a entender que ser LGBTI+ é doença, um pensamento errôneo que já é ultrapassado. Imagina quando colocamos uma pessoa trans para trabalhar em um produto digital projetado dessa forma?

Fica a reflexão.

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