Arquivo 2020

Finalmente uma descentralização geográfica do design brasileiro?

Larissa Trindade
Product Designer no QuintoAndar
Potiguar e Product Designer

Sou Potiguar, cursei Design Bacharelado na UFRN, com graduação sanduíche pela Carleton University (Canadá), e tenho cinco anos de experiência atuando como Product Designer em startups nacionais e internacionais.

Larissa Trindade
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Um olhar de uma designer nordestina sobre a contração de designers na indústria de tecnologia da informação no Brasil.

Vivemos um momento histórico único: pandemia, crise politica, econômica e estamos rodeados por incertezas. O que falar sobre o Design para 2021 em um cenário tão incerto? Diante de todas as dúvidas e especulações, uma coisa me parece certa: a pandemia impôs o trabalho remoto para muitas empresas, e ele parece ter vindo para ficar. Com isso, temos uma oportunidade sem precedentes de descentralizar a contratação de designers.

Sou nordestina, nascida em Natal-RN e formada em Design pela UFRN. Minha história é bem parecida com a de muitas pessoas que trabalham com design na área de tecnologia e que vieram para o sudeste atuar em uma startup. Posso te dizer com propriedade: ser designer no nordeste não é uma tarefa fácil. Temos um mercado escasso, a desvalorização da profissão e a falta de representatividade. Passei a graduação acreditando que para construir uma carreira sólida na minha área precisaria estar nesse eixo onde se encontram as faculdades e empresas renomadas. Cá estou.

Quando me mudei para São Paulo, fiquei impressionada com as oportunidades pipocando no LinkedIn, e até mesmo em rodas de conversa — Como assim eu poderia escolher onde quero trabalhar? O choque de realidade foi imenso!

Mas não poderia ser diferente. A maioria das empresas de tecnologia e capital de investimento se encontram no sudeste e consequentemente geram mais oportunidades de emprego nessa região, especialmente em centros tecnológicos como BH, RJ e SP.

Trabalho remoto e descentralização geográfica.

Em março de 2020, após a Organização Mundial da Saúde declarar a pandemia do Covid 19, sofremos uma mudança na nossa relação com o trabalho, milhares de pessoas perderam seus empregos e uma parcela privilegiada da população migrou para o trabalho remoto. Para as empresas de tecnologia, essa transição foi mais suave e consequentemente mais bem aceita pelos funcionários. De acordo com a pesquisa "Covid-19 Consumer Study", do IBM Institute for Business Value (IBV), 52% dos brasileiros que participaram da pesquisa desejam continuar trabalhando exclusivamente em casa ou com idas ocasionais ao local de trabalho. Nesse novo cenário onde o presencial não é obrigatório, as oportunidades de emprego nas empresas de tecnologia não precisam mais estar centralizadas no sudeste.

Essa adesão ao trabalho remoto já está mudando a maneira como as empresas buscam profissionais. Na publicação "Coronavirus: How the world of work may change forever" para a BBC, Karin Kimbrough, Chief Economist no LinkedIn, afirmou que notaram 4x mais empregos remotos sendo ofertados globalmente, assim como o aumento da busca de candidatos por essa modalidade de trabalho. O uso do filtro “Remoto” no LinkedIn aumentou aproximadamente 60% desde março.

Esse movimento foi notório entre colegas de curso. Designers mudaram de empregos durante a pandemia e ainda não conhecem pessoalmente seus times, outros assumiram posições totalmente remotas. A descentralização geográfica do trabalho, principalmente em empresas de tecnologia, nos permite sonhar com uma nova realidade para o Design Brasileiro.

Mudanças e efeitos a curto e longo prazo

  • Aumento do leque de contratação das empresas: Empresas podem contratar diversos talentos com mais facilidade, especialmente habilidades que estão menos disponíveis localmente;
  • Fortalecimento da comunidade de design em outras regiões: hoje ainda temos mais oportunidades de emprego no sudeste pela obrigatoriedade presencial, isso gera uma maior concentração de designers em uma pequena parte do país, enfraquecendo as comunidades de design em outras regiões do Brasil;
  • Equipes de design mais diversas: projetamos produtos que serão utilizados nacionalmente ou até globalmente, ter uma equipe de design com contextos, referências e vivencias diferentes é crucial e contribui para que o produto considere comportamentos sociais distintos. Como designers, estamos sempre em contato com usuários, já imaginou o quão rico podem ser as pesquisas de comportamento, usabilidade e aceitação de um produto com uma equipe de design descentralizada geograficamente?
  • Mudanças socioeconômicas: a diferença salarial de um designer no sudeste e em outras regiões do país é desproporcional. Com a ascensão do trabalho remoto, temos a possibilidade de espalhar esse capital econômico pelo país. Além de fomentar a formação de novos designers e aberturas de cursos devido a oferta descentralizada de empregos.

Como facilitar essa mudança?

Sabemos que o design brasileiro ainda é muito elitista e a descentralização na contratação não resolve esse problema, é necessário um trabalho educacional para que nossa profissão se torne uma possibilidade para jovens de áreas periféricas. Mas, através do trabalho remoto, já conseguimos democratizar o acesso a vagas de emprego para diversos graduados em design pelo Brasil, o que me parece ser o início de uma mudança.

Para as empresas será necessário quebrar vieses no processo de seleção de pessoas. Muitas vezes recrutadores e líderes de design são atraídos por um estereótipo do bom designer: trabalhou na empresa X, frequentou a universidade Y, experiência internacional, etc. Para que essa mudança aconteça, além de ampliar o raio de recrutamento, as empresas precisarão repensar seus critérios e referências para avaliar profissionais com experiências mais heterogêneas.

E para nós, designers, vale refletir sobre o quanto estamos nos preparando para essa descentralização. A educação remota está se ampliando e amadurecendo. Hoje, é possível acesso a cursos ministrados em outras regiões sem precisar sair de casa, o que diminui o custo de formação para pessoas fora do principal eixo econômico do país. Mais do que nunca, nossas redes de influência e referências profissionais estão extrapolando o local através de eventos e comunidades virtuais, conectando pessoas de todas as regiões.

Por fim, a ascensão do trabalho remoto mostra que o design brasileiro não precisa mais estar fortemente centralizado nesses poucos pólos privilegiados. Os benefícios impactam produtos, empresas, profissionais e, principalmente, o desenvolvimento de outras regiões do país. Mas isso requer uma mudança de comportamento de designers, recrutadores e líderes de design para que possamos construir um Design Brasileiro cada vez mais diverso.

Referências

Mais de 50% dos profissionais brasileiros desejam manter o home office após a pandemia, aponta pesquisa IBM. Época Negócios, 2020. Disponível aqui. Acesso em: 25 Nov. 2020.

Coronavirus: How the world of work may change forever. BBC, 2020. Disponível aqui. Acesso em: 25 Nov. 2020.

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