Arquivo 2020

Designers will design

Juliana Morozowski
Product Designer no Nubank
Feminista, introvertida e nerd.

Graduada em Design Industrial pela UDESC e especialista em UX pela UFSC. Há mais de 16 anos navegando no universo do Design. Do gráfico a ilustração, da diagramação à websites, de softwares a a aplicativos e produtos. Com experiência tanto em consultorias quanto em empresas de produto, já viajou metade do país realizando pesquisas em design e desenvolvendo projetos. Já liderou equipes de UX em diferentes cidades do país e hoje atua na área de app evolution no Nubank. Como boa nerd, é apaixonada em resolver problemas complexos. Lifelong learner

Juliana Morozowski
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Quem nunca ouviu que o "designer quer ter seu espaço à mesa" para poder discutir de igual para igual a estratégia do produto com o resto da empresa? E que, para isso, ele precisa aprender mais sobre negócio, produto, métricas e comunicação; precisa desenvolver seus soft-skills, capacidade de liderança, estar atualizado sobre novas tecnologias e desenvolvimento? Ufa! A lista de aprendizados é infinita. Não me entenda mal, acredito que conhecimento nunca é demais. Se você gosta dos assuntos, acha importante e quer se aprimorar, vai fundo! Só não se esqueça de, no meio do caminho, também aprender mais sobre Design.

E aqui não falo apenas de UX, mas sim de Design. Nossa área é muito mais vasta e a experiência do usuário é apenas uma das partes a serem consideradas num projeto. Afinal, não custa lembrar, mas design significa projetar. Se nosso objetivo é entregar um produto que possa promover uma excelente experiência do usuário, provavelmente ele vai ser o fruto de um projeto bem resolvido.

Para melhor projetar, temos à disposição várias ferramentas, práticas, métodos e processos que nos auxiliam nessa tarefa. E aqui cito uma das práticas que eu acho mais interessante, que é a Arquitetura de informação. 

Uma arte (quase) esquecida

Hoje, falar sobre Arquitetura de informação se assemelha a entrar num antiquário para resgatar algo que está no fundo de um armário antigo; você vê uma peça interessante mas que está toda empoeirada e meio enferrujada. Parece que não faz muito sentido trazê-la para a luz do dia. Melhor deixá-la lá, escondida no escuro mesmo. Pelo contrário meu amigo/a designer, essa peça precisa, mais do que nunca, aparecer na vitrine da loja.

Palavras como sistemas, ecossistemas, complexidade, hierarquia, taxonomia e sustentabilidade, entre tantas outras, não são palavrões. Elas precisam estar cada vez mais presentes na boca - e na prática - dos designers.

Parece que pensar em aplicativos acabou "simplificando" as coisas na nossa mente. Que é algo simples e fácil de resolver. Afinal, temos muitos produtos de referência no mercado para nos espelhar. Basta fazer uma pesquisa, definir uma estratégia, fazer uns wireframes; juntar umas telas em sequência, colocar um scroll aqui, um tab ali e voilà, temos um app. Com design system, boas práticas, frameworks, templates prontos e muitos outros recursos à disposição, tudo ficou muito mais "fácil" de se resolver. Seria maravilhoso se tudo fosse tão simples assim.

Mas por que não seria? Porque o mundo nunca esteve tão confuso. Ao mesmo tempo que temos tantas facilidades à nossa disposição, a complexidade aumenta a cada dia. Basta ver, por exemplo, os grandes desafios que teremos relacionados às mudanças climáticas. Ter facilidade em algumas partes do projeto deveriam nos permitir ter mais tempo para pensar em outros aspectos dos problemas a serem resolvidos. Um desses casos seria pensar em como nossos produtos podem evoluir de forma mais orgânica.

Lembra do papo lá de cima sobre sentar à mesa e discutir a estratégia? Pois é, cá estamos, neste exato momento. Aqui precisamos não só do seu conhecimento sobre business, que sim, vai ajudar a conectar a inteligência do negócio com as necessidades do usuário. Mas, além disso, precisamos da sua visão de designer e, de preferência, uma visão adequada ao mundo em que estamos vivendo, numa versão expandida, abstrata e, principalmente, sistêmica.

Acompanhando a complexidade do nosso mundo, seguem os produtos que desenhamos. Se, por um lado, conseguimos projetar experiências mais intuitivas e fluídas, por outro, elas co-existem num contexto muito mais amplo. Pois nenhum produto existe no vácuo. Ele existe dentro de um universo de outros produtos e serviços inter-relacionados; estes, por sua vez, também são sistemas únicos em si. E todos eles juntos formam um ecossistema com um único propósito. Confuso? Sim. Esse é o momento que nos encontramos agora. Um momento complicado. 

"That’s what a system is: a set of elements that work in interrelated ways towards a purpose." 
Jorge Arango

Mas o que eu quero dizer com tudo isso? Que nossa maneira de projetar está, de certa forma, limitando o crescimento dos nossos produtos, que demoram muito a responder às novas necessidades das pessoas e do mundo. Por exemplo, conseguimos no dia a dia colocar várias melhorias pontuais e incrementais. Mas, quando precisamos expandir uma estrutura que precisa suportar mais produtos ou funcionalidades, acabamos tratando isso como um redesign, pois a mudança necessária é muito maior e envolve mais pessoas. Isso gera impactos nos times, no custo e no time-to-market do produto. Nem sempre projetamos considerando a evolução contínua. Nosso pensamento acaba sendo limitado a alguns meses à frente do dia de hoje. Pensamos na entrega do quarter, do semestre. Pensamos no projeto feito, finalizado e entregue. 

Por isso considero a Arquitetura de informação uma prática muito importante. Sua utilização, nos permite pensar em estruturas, sistemas e complexidades. Ela nos ajuda a ampliar a nossa visão, permitindo explorações estruturais e conceituais que facilitam a evolução. Nos auxilia a pensar de forma mais sistêmica, abraçando o agora e o futuro de produtos e serviços. 

Esse é um breve exemplo, entre tantos outros possíveis, que usei para ilustrar sobre as belezas que temos a disposição no nosso "cinto de habilidades" do design.

De conceitos abstratos à realidade

"We live today not in the digital, not in the physical, but in the kind of minestrone that our mind makes of the two". 
Paola Antonelli

Saindo do abstrato e indo para o mundo real, temos visto como sites e aplicativos estão criando contextos que influenciam a nossa maneira de entender o mundo e como agimos nele. Mesmo comprimidos em pequenas telas, esses sistemas se conectam num universo que vai muito além deste momento.

Hoje passamos grande parte do nosso tempo online, em ambientes informacionais. Nossas atividades diárias, seja por praticidade ou por alguma circunstância inesperada como o COVID-19, foram empurradas ainda mais nessa direção. 

O que fazíamos antes foi para o digital. O trabalho, a academia e a escola foram obrigados a migrar para o mundo intangível. Empresas tiveram que ser criativas, à toque de caixa, para sobreviver à essa mudança. E a rapidez dessas transições só foi possível graças a natureza imaterial dos ambientes informacionais, que mudam de uma forma muito mais rápida que um prédio físico. 

O estado natural desses ambientes é estar em um constante fluxo, adaptando e evoluindo em resposta aos desafios que o mundo apresenta.

Esse momento em que estamos vivendo representa um dos grandes desafios que teremos que enfrentar nos próximos anos. Quanto mais caminhamos em direção a espaços informacionais complexos, mais precisamos aprimorar nossa forma de pensar e projetar. Refletir em como nossa vida vai acontecer e evoluir no digital. 

Para isso acontecer, devemos criar condições que permitam que essa evolução ocorra tanto de forma conceitual quanto estrutural, sem comprometer o propósito desse produto e/ou serviço. E o que não nos falta é conhecimento dentro de casa para nos ajudar nessa tarefa. 

Na nossa carreira, vamos aprender muitas coisas, desenvolver novas habilidades, conhecer muitos temas e literaturas sobre outras áreas de conhecimento, que não são do universo do Design. Tudo isso é muito importante para que sejamos designers melhores. Mas, no final das contas, designers will design.

_________________________

Este texto foi inspirado pelo livro "Living in Information - Responsible Design for Digital Places" - Jorge Arango

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