Arquivo 2020

Designer Sobrevivente

Humberto Matos Valério da Silva
Product Designer na Kaspper
Designer Sobrevivente

Humberto Matos, formado em Desenho Industrial pela Faculdade Paulista de Artes em (2006). Há mais de 10 anos atuando como Designer, trabalhou em empresas como Rede globo, Lojas Marisa... morou na África do Sul e Alemanha. Atualmente trabalha na área de tecnologia como Product Designer.

Humberto Matos Valério da Silva
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Levando em consideração que eu conheça alguns Designers com formação e que estão desempregados ou  até mesmo anos fora do mercado de trabalho, eu sempre me questiono o que acontece com a profissão de Design no Brasil?  

Quando eu decidi que seria um profissional na área do Design, o ano era 2006 e eu um jovem negro  periférico e cheio de sonhos que desde de criança amava desenhar e pintar... teria a oportunidade de  trabalhar com algo que de fato fosse a minha vocação. 

Na época eu pesquisava sobre profissões relacionadas ao desenho como Arquitetura, Engenharia e  Design... e foi essa última profissão descrita que me motivou a ser um profissional apaixonado pela área. 

Então antes de ingressar na Faculdade em algumas das minhas pesquisas sobre a área de Design eu  encontrei informações que responderam minhas perguntas como, O que é Design? O que é Designer?  

Depois de várias pesquisas eu não tive dúvidas em escolher o Design como profissão... Em relação a  escolha profissional eu tinha ouvido alguns comentários do tipo, essa profissão é elitista, você terá  dificuldade em conseguir emprego...  

Deixando de lado as opiniões alheias, ingressei na Faculdade Paulista de Artes em 2006 o curso era  Desenho Industrial, para minha surpresa no início da faculdade éramos em mais de 40 alunos em sala de  aula e apenas 2 pessoas negras minha amiga Ana C. Bretas e eu...  

Ao longo de 4 anos de Faculdade, o número de desistência entre os alunos aumentava constantemente,  por diversos fatores, alunos que não conseguiram pagar a mensalidade do curso, alunos que mudavam de  curso... Eu mesmo enfrentei alguns esforços como passar 2 horas no transporte público para chegar ao  trabalho e depois de 8 horas trabalhadas ir para faculdade e por fim mais 2 horas de condução para voltar  pra casa... enfim eu não desisti e me mantive até o final do curso, durante esses 4 anos de faculdade. 

Apesar do cansaço, foram anos muito importantes para o meu desenvolvimento intelectual e pensamento  crítico... Eu tive a oportunidade de aprender com meus professores sobre: Bauhaus, Gestalt, Alexandre  Wollner, Karl Marx... 

(Bauhaus, foi uma escola de arte vanguardista na Alemanha. A Bauhaus foi uma das maiores e mais  importantes expressões do que é chamado Modernismo no design e na arquitetura, sendo a primeira escola de  design do mundo. Wikipédia)  

(A gestalt, também conhecida como gestaltismo, teoria da forma, psicologia da gestalt, psicologia da boa forma  e leis da gestalt, é uma doutrina que defende que, para se compreender as partes, é preciso, antes,  compreender o todo. Wikipédia) 

(Alexandre Wollner é considerado o pai do design moderno no Brasil, tendo participado de uma série de  entidades importantes no fortalecimento do design.)

(Karl Marx foi um filósofo, sociólogo, historiador, economista, jornalista e revolucionário socialista. Nascido na  Prússia, mais tarde se tornou apátrida e passou grande parte de sua vida em Londres, no Reino Unido.  Wikipédia) 

Depois da Faculdade de Desenho Industrial ( Design Gráfico ) eu pude compreender a enorme importância da  TEORIA junto à PRÁTICA, estudar, ler, debater e conhecer diversos assuntos no curso de Design me fez um  profissional completo... Estou há mais de 10 anos trabalhando como Designer, e através do meu aprendizado e  profissionalismo consegui sobreviver a muitos obstáculos que encontrei pelo caminho...  

Eu obtive a oportunidade de passar por diversas áreas do Design como Design de Superfície, Design Gráfico,  UX/UI Design e Design de Produto... Trabalhei e ainda trabalho em grandes projetos e empresas como, Rede  Globo, Lojas Marisa, Kaspper entre outros...

Infelizmente há um fato que pude constatar durante esses anos como profissional... a profissão de Design é sim  elitista e racista, na maioria das empresas e projetos em que trabalhei, eu era a única pessoa negra. 

Eu trabalhei em uma grande empresa, onde éramos em 40 pessoas em um único setor e apenas eu era o único  profissional preto da equipe.  

E durante esses anos me mantive ativo nos estudos, fiz pós graduação, curso de especialização, tive  oportunidade de fazer intercâmbio, estudar inglês e conhecer outros países...  

E por isso me entendo como um “Designer Sobrevivente” por diversos fatores como fator racial, pela  quantidade de profissionais negros na área; pelo fator profissional, muitas vezes a concorrência é desleal  porque no Brasil a profissão do Designer é subentendida... um profissional graduado pode competir com um  profissional sem graduação ou curso técnico, e acredito que isso dificulte no entendimento do mercado de  trabalho e dos profissionais em relação a profissão de Design.  

Eu penso se seria válido estabelecer classificações na profissão de Design como pôr exemplo na Enfermagem:  Enfermeiro, Técnico de Enfermagem e Auxiliar de Enfermagem... Seria algo do tipo: Designer, Técnico em  Designer e Auxiliar de Designer... talvez assim poderíamos qualificar os profissionais e criaríamos uma base  profissional sólida em relação a nossa profissão!? Será que isso ajudaria na procura de profissionais no  mercado de trabalho? A profissão de Design teria mais respeito?  

Atualmente trabalho como Product Designer na área de tecnologia, e acredito que com o crescimento da  Inteligência Artificial nós Designers estamos ganhando prestígio nessa área de UX/UI Design trabalhando em  Startups e grandes empresas de Tecnologia... Será então a área de tecnologia que irá trazer o nosso tão  esperado reconhecimento como profissional na área de Design? 

Deixo aqui então a minha contribuição, o meu relato e os meus questionamentos... para todos amigos  Designers e Sobreviventes que acreditam e são apaixonados por esse ofício assim como eu.  

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