Arquivo 2020

Design como ferramenta para um mundo melhor

Camila Moletta
Head de Design e cofundadora da MORE GRLS
Feminista, ativista, nerd do design

Designer formada pela PUC-Rio, com mestrado pela London College of Communication, Camila acumula mais de 15 anos de experiência no mercado de comunicação. Ao longo da carreira, se especializou em Branding e Customer Experience e trabalhou em consultorias e agências renomadas, como Tátil Design, Ana Couto Branding, Landor Associates em Londres e Isobar Brasil. Além de cofundadora da maior plataforma de talentos criativos femininos do Brasil, a MORE GRLS, é palestrante, criadora do podcast Job pra Ontem e Head de Design na F.oxi Consulting, parte do grupo WPP.

Camila Moletta
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Baader-Meinhof. Um nome que até poucos anos atrás eu não conhecia mas que descreve um fenômeno bem comum: aquela sensação de que está todo mundo falando da mesma coisa, porque você ouve falar dela o tempo todo. Na verdade, este efeito acontece depois que aprendemos sobre um assunto, e nossa consciência sobre ele aumenta - daí a sensação. 

Meu Baader-Meinhof deste ano foi sobre design e impacto positivo. 

Começou logo no início da pandemia, com a criação do movimento The Design Vanguard, por alguns dos maiores nomes do design mundial. Em suas próprias palavras, a ideia é "usar os recursos e a influência de um grupo de lideranças criativas a favor de um mundo mais justo, seguro e belo." Além de mapear projetos ligados ao COVID-19, também foi escrito um compromisso em forma de manifesto que pode ser assinado por qualquer designer - dez princípios que devem inspirar e guiar profissionais atuantes no mercado.

Já no segundo semestre, teve o lançamento do documentário "The Social Dilemma" no Netflix, onde ex-executivos de algumas das maiores big tech tentaram nos convencer de que não fazem mais parte do lado negro da força (ok, talvez essa descrição seja simplista e irônica demais). O docu-drama não fala nada que já não sabemos - o fato de que redes sociais influenciam nosso comportamento e emoções no mundo real e o resultado tenebroso dessa influência, desde o âmbito político, até saúde mental. O que me impactou na verdade, foi uma expressão usada por todos os entrevistados: como toda a experiência é feita by design. Esta expressão tem um significado duplo em português: com intenção, usando o design como ferramenta. 

E eu não podia deixar de falar do fechamento da primeira temporada do podcast Job pra Ontem, da MORE GRLS, a startup de impacto social da qual sou cofundadora. No episódio 12, cujo tema foi comunicação e impacto positivo, 6 mulheres, líderes em suas áreas, pensaram em como a comunicação pode assumir sua responsabilidade e gerar mudanças positivas de forma prática. Falamos sobre propósito, cause washing e do desalinhamento entre discurso e prática, tão comum entre marcas do mundo todo. Se existe alguma vantagem trazida pelas redes sociais, essa foi uma delas: as marcas não conseguem mais se esconder atrás de discursos bonitos, hashtags e quadrados pretos no instagram.

Quando pensamos em impacto positivo, sempre pensamos em gestos grandiosos, causas sociais e movimentos globais. Só que, se juntamos essa parte da equação a "pagar boletos", essa conta nem sempre fecha. Mas e se levarmos esse pensamento para o dia a dia da prática do design?

Uma frase do podcast que ficou comigo foi quase um desabafo da Luciana Bazanella, CEO da White Rabbit, consultoria que explora tendências para cocriação de futuros desejáveis:

"É mais fácil pra gente imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo como ele é."

A Luciana também falou de um exercício que faz parte da metodologia da White Rabbit que se chama "criação de ficções sociais". Funciona quase como se fosse um cronograma de trás para frente: o que você ou sua empresa querem alcançar? E quais são as etapas que precisam traçar para chegar lá? Filmes de sci-fi fazem esse exercício o tempo todo, então por que não usar a mesma estratégia para pensarmos em impacto positivo de um jeito prático?

Vamos usar um exemplo do filme "Social Dilemma", que apresenta o conceito de "Conscious Design". O termo é usado para descrever a "consciência do potencial de longo prazo e consequências não previstas do que projetamos, e a experimentação contínua do processo de design para construir produtos e serviços sustentáveis". Será que, além das metas de alcance e downloads dos produtos que criamos, também não deveria haver metas para criação de experiências antiansiedade? Justin Rosenstein, criador do botão de like do Facebook, certamente não imaginou o potencial destrutivo de um simples botão (temos que ser otimistas). 

Outro exemplo vem do tal desalinhamento entre discurso e prática. Vimos muitas marcas se pronunciarem antirracistas em maio, com o assassinato de George Floyd nos EUA e o fortalecimento do movimento Black Lives Matter globalmente. A grande maioria dessas marcas ficaram mudas ao serem questionadas sobre a composição dos seus times e quais medidas eram tomadas para aumentar a empregabilidade de pessoas negras. Desde 2014, a McKinsey lidera uma pesquisa e relatório que relacionam a performance financeira de mais de 1000 empresas em 15 países e a presença de diversidade na liderança. A equação diversidade > inovação = dinheiro é clara, mas mesmo assim, o progresso é lento. 

Se você é designer, olhe para o lado: os seus colegas se parecem com você? Quando você pensa em designers que você admira, você tem dificuldade de lembrar de pessoas que não sejam homens brancos? Existe uma grande chance dessas respostas serem "sim", visto que a nossa prática é historicamente elitista no mundo todo. Será que não está na hora de procurar ativamente por parceiros e colaboradores que façam parte de grupos minorizados? Falo ativamente, pois hoje ainda montamos nossos times baseados somente em indicações - uma busca totalmente passiva. Se vamos priorizar a contratação de mulheres, negres, LGBT+ e PCDs, precisamos sair do conforto da nossa bolha e BUSCAR essas pessoas em outros lugares que não os habituais. Além disso, precisamos reavaliar os critérios de contratação. Será que precisamos exigir inglês fluente quando somente 5% dos brasileiros falam o idioma ou será que podemos pagar para que a pessoa aprenda? Será que estamos fazendo as perguntas certas para potenciais talentos?

Eu ainda lembro do juramento que fiz na minha formatura, há 18 anos atrás: designers devem ter responsabilidade sobre o que criam, não podem ser somente agentes passivos.

Em momentos de crise, é mais importante do que nunca lembrarmos desse juramento. Precisamos voltar a nossa capacidade para o que o design faz de melhor: solucionar problemas complexos. Ao fazermos a famosa pergunta “Como podemos...”, não só questionamos produtos e serviços que existem hoje, mas também abrimos infinitas possibilidades para que novas soluções apareçam. É só ver a quantidade de projetos incríveis que surgiram em 2020 para contribuir de alguma forma para a “solução” da pandemia: desde a criação dos face shields, criados por designers da IDEO, até a plataforma Designers Negres no Brasil, que ajuda a mapear e a buscar talentos negres.

Se você está começando a carreira e cria posters para o Design Ativista ou se é líder de um time e tem poder de gerar mudanças em escala, não importa. Pense no que é inegociável para você e quais resíduos você está deixando. Transparência e autenticidade são as moedas do futuro, tanto para marcas, quanto para pessoas.

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