Arquivo 2020

As pegadinhas do nosso cérebro

Renata Carriel
UX Designer na Wildlife
UX Designer

UX Designer com 8 anos de experiência no mercado, onde já trabalhou com uma grande variedade de marcas como Nestlé, Lacta, Editora Globo, Rayban, Linx, entre outras; e uma grande variedade de produtos, como aplicativos, jogo de realidade aumentada, campanhas digitais, e plataformas SaaS.

Renata Carriel
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Com certeza, você já deve ter se deparado com situações em que você apresentou dificuldades em se desvincular de algo em que você aplicou muito esforço. Ou que tendeu a  interpretar novas informações de modo que sejam compatíveis com suas teorias, concepções e visões. Ou por ter se seduzido mais com histórias plausíveis. Possuímos várias armadilhas na nossa forma de pensar e de tomar decisões. Essas armadilhas são os conhecidos vieses cognitivos e eu cito alguns deles neste texto.

Com emoção ou sem emoção?

Você vai apresentar uma nova proposta de um produto. Há outros concorrentes nessa espera junto com você. Não à toa, você está confiante de que vai arrasar, afinal, sua apresentação está rica em dados e você fez toda a sua lição de casa como um UX designer faria: colheu números de mercado, pesquisou, entrevistou pessoas e validou seus protótipos. Mas, no final, seu cliente optou por outro concorrente. Você se frustra e se questiona o porquê. O seu concorrente também fez a lição de casa, mas ele trouxe uma história. O que isso quer dizer? Nosso cérebro sente atração por histórias e aversão a fatos abstratos. Esse é o famoso viés da história. 

Quantas vezes você está no mercado, e mesmo com inúmeras opções de produto à sua frente, inconscientemente você opta pelo produto A, pois é o que traz uma maior conexão afetiva com você. Uma conexão é contada através de uma história e não pelo relato de um fato. Uma propaganda que conta uma história funciona melhor do que a enumeração racional das vantagens de um produto.

Voltemos a sua apresentação. E se você estiver do outro lado da mesa, sentado ao lado dos figurões, tomadores de decisões, tem que tomar um pouco de cuidado com essas histórias. Elas podem deturpar a realidade, prejudicando a qualidade de nossas decisões. Ainda mais se a história for plausível - o que entra na falácia da conjunção. Caímos na falácia da conjunção, porque temos uma compreensão intuitiva para histórias “consistentes” ou “plausíveis”, em outras palavras, quanto mais convincente e vívida é a descrição, maior é o risco do pensamento. Como já diria Daniel Kahneman, possuímos dois tipos de pensamento: um é intuitivo, automático e imediato, e o outro é consciente, racional, lento, trabalhoso e lógico. É normal que o nosso pensamento intuitivo tire conclusões precipitadas, muito antes do consciente entrar em ação - normal porém infeliz. O pensamento intuitivo possui um fraco por histórias plausíveis. Nessa situação, trabalhe com seu lado consciente, por mais que você precise de algumas horas para refletir ao tomar uma decisão que não seja de imediato e de maneira intuitiva. E, caso você esteja ao lado do apresentador dessa história, trazê-la é importante, porém em equilíbrio aos fatos - senão, se todos da sala forem sensatos a serem racionais, lhe acharão um tremendo charlatão.

O estudo da mente é uma coisa incrível. Vários fatores internos e externos influenciam o nosso inconsciente, o que nos leva a tomar certas decisões. Se você tivesse que escolher um horário para apresentar essa nova proposta de produto, qual destes você escolheria? a) às 9:00h; b) 13:30h; c) 15:00h; ou d) 17:30h? Foi realizado um estudo com centenas de veredictos sobre o horário das sessões marcadas ao longo do dia em um tribunal e a decisão dos juízes. O estudo demonstrou que, com o avançar do dia, os juízes tinham menos chances de dar um parecer favorável a um prisioneiro. Ao longo das sessões, a porcentagem de pareceres favoráveis caía gradualmente de 65% para quase zero, e após um recesso ou almoço, voltava a 65%. Quanto mais decisões tomamos, mais cansados ficamos. Isso é a fadiga de decisão. A nossa força de vontade cai a zero quando não nos recarregamos, seja relaxando ou comendo alguma coisa. Sempre pense nisso quando você tiver que tomar decisões difíceis em um dia ou de apresentar uma ideia para um cliente.

Até aqui a gente já entendeu que o nosso cérebro tende a ser mais intuitivo do que racional, e que somos mais aptos a memorizar histórias do que fatos abstratos. Outro fator que ocorre na nossa mente é que o nosso cérebro pensa de maneira dramática, e não quantitativa. Seria praticamente um "o que o coração sente, o nosso cérebro vê". Ou seja, todas as coisas que são mais chamativas e barulhentas estão mais disponíveis ao nosso cérebro do que aquelas que são mais invisíveis e silenciosas, pois tendemos a aumentar a probabilidade para as coisas mais chamativas e diminuir a probabilidade para as mais silenciosas. Os psicólogos nomeiam esse fato como o viés da disponibilidade. Por isso, é muito importante que você sempre esteja rodeado de pessoas que possuem experiências e pensamentos diferentes dos seus.

Estar em volta de pessoas que pensam diferente de você não perpetua a somente esse único viés. Há vários outros que nos influenciam ao estarmos perto de nossos "espelhos". Um deles é a prova social. Tendemos a nos comportar de modo correto, quando nos comportamos como os outros. Outro tipo é o viés do pensamento em grupo (quem aqui já deixou de dar alguma opinião em uma reunião? Eu já). Tendemos a ajustar nossas opiniões devido ao suposto consenso. Não estou querendo dizer para você ser um rebelde em meio a sociedade ou aos seus colegas de trabalho, mas, é sempre importante ter os advogados do diabo presentes em uma reunião.

Um viés que é bem frequente, seja no nosso âmbito profissional como pessoal, é a falácia do custo irrecuperável. Por que é tão difícil interrompermos um projeto que está dando errado quando já investimos muito tempo, energia e dinheiro? Quanto mais aplicamos esforço e dinheiro a algo, mais difícil é desapegarmos. Decidir racionalmente é ignorar os custos acumulados. Errar é humano. Persistir no erro, bom, essa vocês sabem completar.

Outro viés comum que acontece, principalmente nas práticas de pesquisa, é o viés da informação. Temos a ilusão de que "quanto mais informação, melhor" e mais garantida é a tomada de uma melhor decisão. Procure avaliar o quanto a informação impacta na sua decisão e tente se virar com os fatos por si só, ao invés de reunir todos os dados, ao contrário, você pode acabar tendo noites perdidas de sono atrás de informações a mais.

Há muitos outros vieses que influenciam a nossa forma de pensar e de tomar uma decisão. Mas, só pelo fato de você conhecer alguns e começar a prestar atenção à maneira como o seu inconsciente reage a eles, você estará preparado para tomar decisões mais eficazes.

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