Arquivo 2020

A síndrome de impostor no design, o “outro” inatingível e ambientes tóxicos

Thomas Castro
Senior Product Designer na HubSpot
Homem trans, feministo, antirracista

Designer com mais de 14 anos de experiência em design de interação, arquitetura de informação e pesquisa para produtos digitais. Atuou nos mais diversos segmentos de mercado, passando por empresas como AG2, Instituto Nokia de Tecnologia, Arezzo e multinacionais na Europa. É Senior Product Designer na HubSpot.

Thomas Castro
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A chegada da pandemia desestabilizou todo mundo e criou incertezas ainda maiores sobre o futuro. E foi na mistura desse cenário caótico com outros contratempos que acabei vivenciando novamente a síndrome de impostor. Felizmente, dessa vez eu tive todo o suporte necessário fora e dentro do trabalho para reverter a situação, mas mesmo assim ela aconteceu. Tem como a gente acabar de vez com a síndrome do impostor? O que eu posso fazer para evitar que isso aconteça novamente? Nesse artigo divido com você a minha jornada de aprendizado e experimentos em busca dessas respostas.

É importante ressaltar que a síndrome de impostor é diferente da insegurança que sentimos quando vamos executar uma tarefa que nunca fizemos antes ou que não temos muita experiência. A síndrome de impostor é um fenômeno cultural em que a pessoa acredita que não domina um assunto o suficiente, que o sucesso alcançado é por sorte, que é uma fraude e será desmascarado, apesar de ter provas concretas e muitas vezes extensas do seu sucesso. Ela não consegue internalizar e reconhecer seu próprio sucesso porque sua  mente distorce ou contradiz os fatos.

Em contrapartida, a inadequação temporária é algo que sentimos toda vez que vamos fazer algo que ainda não dominamos. Nesse caso você não é uma fraude, mas você é um principiante em um assunto. É ter auto-dúvida e medo do desconhecido, mas como é temporário será superada assim que seguirmos em frente e aprendermos mais. É normal sentir isso quando temos uma nova experiência e não há nada de errado com isso. Saber identificar essa diferença nos ajuda a compreender e então encontrar as ferramentas certas para superação.

O “outro” inatingível

Muitas vezes o gatilho da síndrome de impostor é a distorção do que a gente pensa da gente mesmo versus o que pensamos sobre os outros designers.

O episodio 251 do Naruhodo podcast é sobre síndrome de impostor e é uma aula sobre o assunto. O Altay de Souza, cientista PhD, brilhantemente cita uma frase do filósofo Francês Montaigne: "Reis e filósofos fazem cocô, assim como as damas”. E segundo o Altay, o que essa frase nos ensina é que quando olhamos pra nós, olhamos de dentro para fora e assim estamos conscientes de nossas angústias e inseguranças, mas quando olhamos para o outro vemos apenas de fora. Não sabemos o que se passa dentro da cabeça do outro, pois só vemos o que ele produz. 

Eu nunca imaginei que falaria de cocô em um artigo sobre design, mas fez sentido né?

Seja sempre o motorista

Segundo pesquisas, a síndrome de impostor é muito comum entre profissionais de alta performance. É sabido que conforme você avança em sua carreira você se torna mais qualificado, mas também recebe mais responsabilidades e, portanto, o medo também pode ser maior. O designer Joe Natoli fez esse retweet recentemente e achei muito reconfortante ver que profissionais tão influentes quanto ele falando sobre o assunto:

Entrei em contato com Joe Natoli para perguntar se ele tinha mais uma dica para nos dar para complementar o Tweet e essa foi a resposta dele:

Não se trata de não sentir medo - ninguém é destemido. Em vez disso, trata-se de coragem diante desse medo. Olha, não vão faltar momentos em que você vai pensar “e se eu não conseguir fazer isso?”. Coragem é a voz que diz "tá, mas e se você puder?"

Permita-se sentir o medo - e faça de qualquer maneira.

Segurança psicológica nas empresas

O campo de UX tem um fator que o torna fascinante e aterrorizante ao mesmo tempo: a incerteza. Temos a tarefa de descobrir e validar problemas/oportunidades, entender pessoas, explorar, validar e definir todos detalhes minuciosos através de processos multifacetados e iterativos. E o que geralmente produzimos não é tangível e material  porque faz parte do campo das ideias e pensamentos e ainda mais, do digital. Além disso, aquilo que é produzido tem que atender expectativas do time, do chefe, da empresa e principalmente das pessoas que vão usar o produto ou serviço em questão. Indo um pouco mais além, se não ficarmos alertas, a abundância de conteúdo e o surgimento constante de novas tecnologias podem gerar mais ansiedade, FoMO (Fear of Missing Out), etc. Não é atoa que as profissões de TI estão entre as 10 mais estressantes do mundo! 

Embora a síndrome não seja de cunho ambiental ou mental mas cultural, é importante ressaltar o papel de líderes e gestores ao criar segurança psicológica no ambiente de trabalho. Ambientes tóxicos em que funcionários não se sentem seguros para arriscar, se sentem deslocados e ameaçados, recebem prazos inalcançáveis, são instigados a competir ao invés de colaborar, tendem a criar gatilhos para a síndrome de impostor e burn out. Eu diria inclusive que dano é ainda maior para mulheres e minorias por nao serem validadas da mesma forma que um homem-cis-hétero-branco geralmente é.

O que fazer

Confrontar a minha síndrome de impostor estava entre os meus objetivos desse último trimestre e continuará no meu radar em 2021 com a chegada de novos desafios. Abaixo está um compilado das ações que tomei que foram efetivas:

Observar e reformular pensamentos

Não alimente os trolls internos: Tente reconhecer a síndrome de impostor quando ela começa a aparecer e observe seus pensamentos, mas sem engajar com eles. Não deixe espaço mental para que os pensamentos negativos cresçam, combatendo assim cada cada um deles com um novo que seja encorajador e validador. 

Mantenha as evidências acessíveis

Aprenda a receber feedback positivo. Vá além e crie um diário "fodástico”, da "lacração”, o nome que for. Coloque no diário as evidências passadas e deixe elas bem acessíveis para quando você precisar. Tome nota sobre o que de novo você tem aprendido para engrossar o caldo do seu repertório, mas também permita-se falhar. A perfeição não existe e está correlacionada com a síndrome de impostor por acharmos que o que a gente faz nunca está bom o suficiente. 

Fale sobre o assunto e fuja de ambientes tóxicos

Como disse a Brené Brown, vulnerabilidade não é sinal de fraqueza e sim de coragem. A comunidade de design é muito unida e disposta a ajudar, então crie pontes na comunidade para conversar sobre esse tipo de assunto. Procure trabalhar em um ambiente que lhe proporcione segurança psicológica para falar abertamente com seus colegas e principalmente pessoas mais experientes como mentores ou seu chefe, pois compartilhar seus pensamento e experiências vão fazer de você alguém mais preparado para lidar com o assunto. 

Não se compare com o “outro idealizado”

Pare de se comparar. Suas competências e experiências são extremamente valiosas, portanto admita que você tem valor. Não é porque algum designer é super talentoso que voce também nao tem capacidade ou que você também já não seja. Aceite que existem coisas que você não sabe, coisas que você nunca vai saber e coisas que você vai decidir aprender. Seja gentil com você, sempre! :)

Seja um eterno aprendiz

Você tem consciência de que não sabe de tudo e isso te mantém humilde. Continue se desafiando e com uma mentalidade de aprendiz, definindo metas e objetivos alcançáveis em cada nova empreitada. Lembre-se de pedir ajuda ou opinião de colegas e mentores sempre que precisar. Saber receber feedback construtivo te tornará um designer e uma pessoa melhor.

Assuma riscos 

Quando aparece uma oportunidade incrível e você sente medo e a sua voz interna diz “Eu não posso...“, é importante distinguir se essa voz diz que você não é bom suficiente ou se você está muito ocupado e não pode assumir mais coisas. A primeira voz é a da síndrome de impostor e, se esse foi o caso, aceite a oportunidade pois certamente existe um motivo pelo qual você foi convidado ou cotado. Você PODE!

Em resumo, as dicas desse artigo não te impedirão de se sentir como um impostor no futuro. É muito difícil se livrar completamente disso, mas espero que você lembre de colocar esses recursos em prática quando ela querer colocar as mãos no volante. Sempre seja o condutor e lembre-se: Todo mundo senta no “trono”, até mesmo o Don Norman.  :) 

Referências:

https://www.b9.com.br/shows/naruhodo/naruhodo-251-o-que-e-a-sindrome-do-impostor/

http://interactions.acm.org/archive/view/may-june-2018/is-there-a-fix-for-impostor-syndrome

https://time.com/5312483/how-to-deal-with-impostor-syndrome/

https://dribbble.com/stories/2019/08/29/outsmart-imposter-syndrome-to-create-your-best-designs

https://www.psychologytoday.com/intl/blog/good-thinking/201310/do-you-feel-impostor

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