Arquivo 2020

A crescente importância de tudo o que não sabemos

Bruno Canato
UX Research Manager no Nubank e professor de UX
semiótica, gay, pesquisador

Especialista em Experiência do Usuário (UX) em estratégia, pesquisa e produtos digitais. Professor mestre no MBA em UX Design & Strategy FIAP e em Inovação, Design e Estratégia da ESPM. Atualmente UX Research Manager no Nubank. Desde 2005, já atuou em projetos de conteúdo experiência do usuário para Chevrolet, ESPN, Laureate, Unilever, Google, Somos, Itaú, Santander e outros.

Bruno Canato
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Você provavelmente não estava prestando atenção, mas a ave Dryolimnas cuvieri, dada como extinta há 130 mil anos, reapareceu em Aldabra nos últimos anos. O raro cão cantor da Nova Guiné, cuja existência hoje acreditava se limitar a 200 espécimes em cativeiro, também ressurgiu na natureza segundo artigo deste ano em Proceedings of the National Academy of Sciences. Ainda este ano, os estudos em inteligência artificial pareceram contestar a pesquisa do cérebro que ainda se baseia nos neurônios, células especializadas, e não no todo, um sistema comunicante. E estamos ponderando os impactos de um vírus mutante no nosso corpo e na nossa economia.

Buscar esse tipo de notícia se tornou um imperativo em meus intervalos de trabalho. Não só elas permitem que eu consiga um respiro dos assuntos do trabalho - reuniões, workshops e negociações - como elas colocam em perspectiva os próximos anos que temos pela frente. Não, não acho que desenharemos experiências para aves ressurgidas pela evolução iterativa ou interfaces para cães cantores. É provável, sim, que nosso entendimento do cérebro mude como trabalhemos, e que tenhamos que lidar mas e mais com as consequências da biologia numa economia que até 10 meses atrás panfletamos como low-touch - para descobrir que ela não era tanto assim.

Não - esse tipo de notícia serve para expor o quanto nosso entendimento sobre um assunto, o quanto nossas certezas bem delimitadas são frágeis. Seja por variáveis invisíveis para nós até o momento da mudança ou ainda por repercussões do que é conhecido, mas que se alastram como ondas de maneiras que não prevíamos. Estamos em um momento em que as coisas que não sabemos rapidamente se tornarão mais importantes do que as que conhecemos.

O movimento que o design realizou no Brasil nos últimos dez anos foi estelar. Em 2005, quando comecei a trabalhar, a discussão sobre experiência do usuário era incipiente. Associar design digital à criação de um produto, de uma experiência longa, e ser capaz de capacitar, empregar e liderar pessoas à marcha desse tambor não era um assunto. Estranhamente hoje estamos nas capas das Você S/A, Exame e HBR. Estamos também em cursos com descontos no Udemy e feiras de empregos de universidades - afinal, desde que Design Thinking elevou AirBnB de uma startup quebrada a um sinônimo de categoria e uma metáfora de modelos de negócio, nunca mais tivemos paz.

Nosso debate está focado em algumas esferas. Temos discutido como trabalhar melhor, e design systems e design ops têm sido aliados. Falamos sobre a importância da tomada de decisão rápida e lutamos por estruturas rizomáticas de gestão, como squads e chapters. Vocês conhecem os últimos plugins de softwares de design como Figma e Adobe XD. E embora eu ainda não tenha me convencido de que exista algo que torne a liderança de design diferente de outros tipos de liderança, o assunto está entre nós, cinco anos após a FastCompany se perguntar dos próximos passos.

Conforme nossos olhares se estreitam nesses espaços em uma disputa acirrada por uma melhor posição, deixamos de observar o mundo. Enquanto pedimos aos colegas por referências documentais e instrumentais, o mundo continua a se movimentar - camada a camada, ciclos evolutivos a ciclos evolutivos, dominó empurrando dominó. O mundo é muito grande para caber em um podcast de design de interação, muito maior que uma convenção de UX.

O trabalho deve continuar. Sempre que pudermos melhorar processos, devemos. Quando houver espaço para otimizar nosso tempo, que o façamos rápido. E quando pudermos trabalhar em equipe de forma melhor, que venha a cavalo. Mas grandes produtos de design surgirão de um entendimento cuidadoso do mundo, para além de nossas ferramentas - como sempre vieram

É pouco provável que a existência de um design system derrube uma iniciativa madura, mas o imprevisto pode reconfigurar todas nossas certezas de uma semana para outra.

Se um designer estiver lendo isso, e estiver preocupado com os próximos passos, eu realmente acredito que podemos fazer diferente e nos prepararmos. As medidas profiláticas são poucas e boas:

  • Ampliar o gosto de leitura e escuta para assuntos que não sejam design. Olhe para o corpo e a biologia, a sociedade e a mente humana.

  • Planejar rotas de Discovery em formato de cruz - profundamente verticais por ter um conhecimento mais e mais específico dentro de um assunto, e amplamente horizontais por localizar assuntos transversais que beneficiem toda sua empresa.

  • Dar contexto às suas pesquisas, contando seu pano de fundo sociocultural, e força de síntese a seus achados, para que sejam mais utilizáveis e menos profissão de fé de designers. Quanto mais você entender, mais o mundo vai se reequacionar; quanto mais mudanças do mundo, mais você precisa entendê-lo de novo.

  • Aprenda com os business plans batidos e sempre trabalhe com cenários otimistas, conservadores e pessimistas. A cultura predominantemente norteamericana de design nos tendencia a pensar apenas no sucesso, e o imprevisto do mundo pode nos entregar barreiras ou derrotas inesperadas.

Ao designer que agora me acompanha, e pensa com desconfiança, preciso lembrá-lo: existe mundo além do design. É o mundo do imprevisto, o mundo fora dos canvas do Figma e do Miro, bem na curva que aquela matriz de priorização não alcança.

Eu estarei feliz se nos cinco ou dez próximos anos descobrirmos uma espécie de ave dada como extinta. E ficarei verdadeiramente preocupado se, vinte anos no futuro, ainda estivermos discutindo os mesmos livros, com os mesmos métodos, e ouvindo os mesmos podcasts. Para minha felicidade, o mundo parece jogar a nosso favor - o cisne negro sempre vem.

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