Arquivo 2020

21 coisas que tem que acabar em UX design para 2021

Rafaela de Souza da Silva
UX Researcher na SumUp
Mulher, latina, bissexual, feminista, antirracista, antigordofobia, antilgbtifobia e anticapacitista

Pesquisadora da experiência do usuário, professora de UX Research, voluntária na TODXS, mãe de pet, catarinense e engajada nas luta contra o machismo, racismo, LGBTIfobia, gordofobia, capacitismo e pseudociência. Após o isolamento, também fazedora de bolos biscoitos e drinks.

Rafaela de Souza da Silva
Escute este artigo

Um tema descaradamente copiado do podcast Braincast

É final de 2020 e eu acho que é o momento de nós, designers, pararmos para refletir sobre nossas ações. Ainda mais num ano como esse, que você deve ter lavado a mão e depois pensado se deveria lavar o sabonete, que tenha dado muitos banhos em embalagens de batata palha e ainda possivelmente tenha perdido alguém para esse vírus, que fez todo mundo chamar essa tensão contínua de Home Office.

Eu vim então começar uma lista que definitivamente não vai estar acabada ao fim deste artigo: 

A lista de 21 coisas que tem que acabar em UX design para 2021:

1 Não aceitarem quando uma ideia é invalidada em pesquisa.

Os usuários odiaram o produto, mas como era um dia chuvoso a gente decidiu invalidar a pesquisa e continuar o lançamento.

2 Teste de usabilidade onde os participantes são 5 funcionários do marketing.

Sabe aquela tensão de estar se atrasando enquanto rola o feed do Instagram, mas continuar rolando mesmo assim, piorando a cada foto? É esse o sentimento que você está ignorando enquanto faz a apresentação com tudo o que você "aprendeu" no teste.

3 Workshop online que começa às 9 e termina às 19:00.

Ninguém merece tentar manter a atenção numa tela por tanto tempo, até uma maratona de todos os filmes de Star Wars em ordem cronológica precisa de pausas, e as vezes ser dividido em dois momentos.

4 Não reconhecer a realidade brasileira.

Seus usuários não são todos Faria Limers, não adianta pesquisar só em São Paulo - capital, nem achar que todo mundo sabe o que é um QR Code. Vale lembrar que 1 em cada 4 brasileiros não têm acesso à internet.

5 Penar pra conseguir uma lista de clientes para fazer recrutamento de pesquisa.

É só mandar email com a solicitação, fazer o treinamento da LGPD, instalar a VPN no seu computador, confirmar o pedido com compliance, pedir para a TI desbloquear a sua máquina e zerar Dark Souls.

6 Acharem que pesquisa se faz de um dia para o outro.

Um pesquisador, um product designer e um product manager; dois dias até o final da sprint e um pedido de pesquisa para guiar a próxima sprint. This is the hunger games!

7 Pessoas de negócios que não conseguem pensar no seu produto/serviço a médio ou longo prazo.

Quer fazer uma pesquisa estratégica, planejar o roadmap, o futuro do seu design system? Você que lute!

8 Dizer que design não é político

Pode ser num tratamento de imagem que clareia pessoas negras, numa equipe de design enorme composta apenas de homens brancos heterossexuais, num botão de desinscrição de uma newsletter que diz "não quero me manter informado", ou na sua tentativa de ser isentão, sua atividade como designer tem consequências cada vez maiores para a sociedade, e você precisa admitir isso e usar com responsabilidade o impacto que você tem nas mãos.

9 Gerar soluções com base em workshop interno ou em mapa de empatia feito internamente, sem consultar o usuário.

Design centrado nos profissionais da empresa.

10 Passar por milhares de burocracias só pra conseguir encontrar alguns clientes por 50 minutos para uma conversa gravada.

Se tem profissionais de segurança lendo, eles estão chorando. Mas às vezes a parte mais difícil do trabalho do UX designer não é UX design.

11 Brigar com CRM para conseguir enviar formulários por email, e no fim não conseguir muitas respostas.

Sua pesquisa vai interromper o envio de emails: "pink friday 2020", "pink friday 2020 últimos dias para comprar" e "você pediu e nós prorrogamos a pink friday 2020".

12 Não abrir vaga para junior, pedir inglês, um teste que demora horas pra ser feito, diploma em faculdade famosa, várias entrevistas em horário comercial e dizer que é difícil contratar de forma mais diversa.

Será que você não precisa diversificar o seu pensamento primeiro?

13 Ter que brigar pra conseguir verba para a recompensa dos participantes de pesquisa.

Se desloque da sua casa até nossa multinacional na Faria Lima para uma entrevista de 2h, você vai receber como recompensa a melhoria do serviço que você paga para usar.

14 Designer que ignora o design system e fica criando novos componentes sem necessidade

Ele é um designer inovador, barroco, muso do Tchan, primeiro de seu nome.

15 Pedido para repetir a pesquisa porque os stakeholders querem um resultado específico. 

O nome deste tipo de pesquisa é pesquisa quântica, por que é um conceito real sendo usurpado e distorcido para justificar terapias, digo, decisões que não vão dar certo.

16 Empresas inteiras só de homens brancos, heterossexuais, cisgêneros e completamente despreparados em cargos de liderança.

Requisito para a vaga: Pelo o menos 4 anos de brotheragem com dono da empresa na época da faculdade. 

Lembrou de alguém? Deve ser por que homens são promovidos por potencial enquanto mulheres por desempenho comprovado, por que 61% das pessoas LGBTI+s precisam esconder sua sexualidade no trabalho e por que 30% dos cargos de liderança são ocupados por pessoas pretas. Se olharmos para o mercado de UX, fica claro o quanto minorias sociais têm menos oportunidades de alcançar posições de liderança.

17 Ajustes de design deixados para próxima sprint.

O famoso a gente compra na volta. Quem nunca teve uma lágrima escorrendo quando, já tendo saído da empresa, abriu o aplicativo e descobriu que aquele ajuste finalmente foi implementado.

18 Amostra "aleatória"de pesquisa.

É um sistema ótimo em que você liga pra qualquer usuário e a sua amostra é quem aceitar primeiro, pode ficar tranquilo que não vai ter viés (aqui tem ironia).

19 Os cargos intermináveis no Linkedin. 

"Antônio dos Santos - UX designer / UX researcher / Design thinker / Business designer / Evangelista do design centrado no usuário"

Quando que "fulano, UX designer na empresa X" saiu de moda? 

20 Alteração de design por que alguém com cargo importante decidiu.

Fazer mil pesquisas mas no fim ter que seguir o coração de um diretor. Aquele momento que você pensa se não deveria mesmo ter feito engenharia civil.

21 Não reconhecer seus privilégios.

Design é uma profissão elitista onde o racismo, o machismo, a LGBTIfobia, o capacitismo e a gordofobia ou prejudicam ou facilitam a sua vida. Já que você deve ter, pelo menos, algum privilégio (afinal tem internet pra acessar esse conteúdo), que tal usar esse privilégio de forma consciente, se informar mais e tentar contribuir para minimizar as injustiças que te favorecem?

Eu listei 21 coisas que eu acho que tem que acabar em UX design para 2021, com  contribuições de Ariel Cardeal, Cecilia Henriques, Diana Fournier, Elizete Ignacio, Luiz Nascimento, Rafael Neves e Thiago Barcelos.

Mas essa lista é só o começo, eu adoraria ver essa lista crescer com mais contribuições, pra isso é só fazer uma continuação deste artigo.

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